Linguagem dos sinais e das pancadas. Tiptologia alfabética.
De duas maneiras se obtêm as pancadas, com médiuns especiais. Esse modo de operar demanda certa aptidão para as manifestações físicas. A primeira, a que se poderia chamar tiptologia por meio de básculo, consiste no movimento da mesa, que se levanta de um só lado e cai batendo com um dos pés. Basta para isso que o médium lhe ponha a mão na borda. Se se quiser confabular com determinado Espírito, será necessário evocá-lo. No caso contrário, manifesta-se o primeiro que chegue, ou o que tenha o costume de apresentar-se. Tendo convencionado, por exemplo, que uma pancada significará — sim e duas pancadas — não, ou vice-versa, indiferentemente, o experimentador dirigirá ao Espírito as perguntas que quiser. Veremos adiante quais as de que cumpre se abstenha. O inconveniente está na brevidade das respostas e na dificuldade de formular a pergunta de modo a dar lugar a um sim, ou a um não. Suponhamos se pergunte ao Espírito: Que desejas? Ele não poderá responder senão com uma frase. Será preciso então dizer: desejas isto? Não. — Aquilo? Sim. Assim por diante.
Um dia, na sua sala de visitas, onde muitas pessoas se ocupavam com as manifestações, um senhor do nosso conhecimento recebeu uma carta nossa. Enquanto a lia, a mesa que servia para as experiências veio repentinamente colocar-lhe ao lado. Concluída a leitura da carta, ele a foi colocar sobre uma outra mesa, do lado oposto da sala. Aquela mesa o acompanhou e se dirigiu para onde estava a carta. Surpreendido com essa coincidência, calculou o destinatário da carta que entre esta e aquele movimento alguma relação havia e interrogou a respeito o Espírito, que respondeu ser o nosso Espírito familiar. Informado do ocorrido, perguntamos, por nossa vez, a esse Espírito qual o motivo da visita que fizera àquele senhor. A resposta foi: “É natural que eu visite as pessoas com que te achas em relações, a fim de poder, se for preciso, dar-te, assim como a elas, os avisos necessários.”
É, pois, evidente que o Espírito quisera chamar a atenção da pessoa a quem nos referimos e procurava uma ocasião de cientificá-la de que estava lá. Um mudo não se houvera conduzido melhor.
Como se vê, este modo de operar é muito lento e consome longo tempo para as comunicações de certa extensão. Entretanto, pessoas há que têm tido a paciência de se utilizarem dele, para obter ditados de muitas páginas. A prática levou, porém, à descoberta de abreviaturas, que permitiram trabalhar-se com maior rapidez. A de uso mais frequente consiste em colocar o experimentador, diante de si, um alfabeto e a série dos algarismos indicadores das unidades. Estando o médium à mesa, uma outra pessoa percorre sucessivamente as letras do alfabeto, se se trata de obter uma palavra, ou a série dos algarismos, se de um número. Apontada a letra que serve, a mesa, por si mesma, bate uma pancada e escreve-se a letra. Recomeça-se a operação para obter-se a segunda, depois a terceira letra e assim sucessivamente. Se tiver havido engano em alguma letra, o Espírito previne, fazendo a mesa dar repetidas pancadas, ou produzir um movimento especial, e recomeça-se. Com o hábito, chega-se a andar bem depressa. Mas, adivinhando o fim de uma palavra começada e com a qual se pode atinar pelo sentido da frase, é como, sobretudo, se consegue abreviar de muito a comunicação. Em havendo incerteza, pergunta-se ao Espírito se foi esta ou aquela palavra a que ele quis empregar e o Espírito responde sim, ou não.
142. Todos os efeitos que acabamos de indicar podem obter-se de maneira ainda mais simples, por meio de pancadas produzidas na própria madeira da mesa, sem nenhuma espécie de movimento, processo que já descrevemos no capítulo das manifestações físicas, n.º 64. É a tiptologia interior. Nem todos os médiuns são igualmente aptos às manifestações deste último gênero. Muitos há que só obtêm as pancadas pelo movimento basculatório da mesa. Contudo, exercitando-se, podem eles, em sua maioria, chegar a consegui-las daquela maneira, que tem a dupla vantagem de ser mais rápida e de oferecer menos azo à suspeita do que o básculo, que se pode atribuir a uma pressão voluntária. Verdade é que as pancadas no interior da madeira também podem ser imitadas por médiuns de má-fé. As melhores coisas podem ser simuladas, o que, aliás, nada prova contra elas. (Veja-se, no fim deste volume, o capítulo intitulado: Fraudes e embustes.)
Quaisquer, porém, que sejam os aperfeiçoamentos que se possam introduzir nessa maneira de proceder, jamais se conseguirá fazê-la alcançar a rapidez e a facilidade que apresenta a escrita, razão por que, presentemente, já é pouco empregada. Ela, no entanto, é, às vezes, interessantíssima, do ponto de vista do fenômeno, sobretudo para os novatos, e tem, principalmente, a vantagem de provar, de forma peremptória, a absoluta independência do pensamento do médium. Assim se obtêm, não raro, respostas tão imprevistas, de tão flagrantes a propósito, que só uma prevenção bastante determinada será capaz de impedir que os assistentes se rendam à evidência. Daí vem que esse processo constitui, para muitas pessoas, forte motivo de convicção. Mas, seja ele o empregado, seja qualquer outro, em caso algum os Espíritos se mostram dispostos a prestar-se aos caprichos dos curiosos, que pretendam experimentá-los por meio de questões despropositadas.
Porque essa senhora, se bem fosse uma mulher de espírito, tinha a fraqueza de crer nos Espíritos e nas suas manifestações. Consiste o instrumento num tampo móvel de mesa, com o diâmetro de trinta a quarenta centímetros, girando livre e facilmente em torno de um eixo, como uma roleta.
Sobre sua superfície e acompanhando-lhe a circunferência, se acham traçados, como sobre um quadrante, as letras do alfabeto, os algarismos e as palavras sim e não. Ao centro existe uma agulha fixa. Pousando o médium os dedos na borda do disco móvel, este gira e para, quando a letra desejada está sob a agulha. Escrevem-se, umas após outras, as letras indicadas e formam-se assim, muito rapidamente, as palavras e as frases.
É de notar-se que o disco não desliza sob os dedos do médium; que os seus dedos, conservando-se apoiados nele, lhe acompanham o movimento. Talvez que um médium poderoso consiga obter um movimento independente. Julgamo-lo possível, mas nunca o observamos. Se se pudesse fazer a experiência dessa maneira, infinitamente mais probante ela seria, porque eliminaria toda possibilidade de embuste.
Assim, pois, nem todos os Espíritos que se manifestam por pancadas são batedores. Este qualificativo deve ser reservado para os que poderíamos chamar batedores de profissão e que, por este meio, se deleitam em pregar partidas, para divertimentos de umas tantas pessoas, em aborrecer com as suas importunações. Pode-se esperar que algumas vezes deem coisas espirituosas; porém, coisas profundas, nunca. Seria, conseguintemente, perder tempo formular-lhes questões de certo porte científico, ou filosófico. A ignorância e a inferioridade que lhes são peculiares deram motivo a que, com justeza, os outros Espíritos os qualificassem de palhaços, ou saltimbancos do mundo espírita. Acrescentemos que, além de agirem quase sempre por conta própria, também são amiúde instrumentos de que lançam mão os Espíritos superiores, quando querem produzir efeitos materiais.