Capítulo XIV — Honrai a vosso pai e a vossa mãe
Honrai vosso pai e vossa mãe
Piedade filial
Honrar a seu pai e a sua mãe, não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco, na infância.
Sobretudo para com os pais sem recursos é que se demonstra a verdadeira piedade filial. Obedecem a esse mandamento os que julgam fazer grande coisa porque dão a seus pais o estritamente necessário para não morrerem de fome, enquanto eles de nada se privam, atirando-os para os cômodos mais ínfimos da casa, apenas por não os deixarem na rua, reservando para si o que há de melhor, de mais confortável? Ainda bem quando não o fazem de má vontade e não os obrigam a comprar caro o que lhes resta a viver, descarregando sobre eles o peso do governo da casa! Será então aos pais velhos e fracos que cabe servir a filhos jovens e fortes? Ter-lhes-á a mãe vendido o leite, quando os amamentava? Contou porventura suas vigílias, quando eles estavam doentes, os passos que deram para lhes obter o de que necessitavam? Não, os filhos não devem a seus pais pobres só o estritamente necessário, devem-lhes também, na medida do que puderem, os pequenos nadas supérfluos, as solicitudes, os cuidados amáveis, que são apenas o juro do que receberam, o pagamento de uma dívida sagrada. Unicamente essa é a piedade filial grata a Deus.
Ai, pois, daquele que olvida o que deve aos que o ampararam em sua fraqueza, que com a vida material lhe deram a vida moral, que muitas vezes se impuseram duras privações para lhe garantir o bem-estar. Ai do ingrato: será punido com a ingratidão e o abandono; será ferido nas suas mais caras afeições, algumas vezes já na existência atual, mas com certeza noutra, em que sofrerá o que houver feito aos outros.
Alguns pais, é certo, descuram de seus deveres e não são para os filhos o que deviam ser; mas, a Deus é que compete puni-los e não a seus filhos. Não compete a estes censurá-los, porque talvez hajam merecido que aqueles fossem quais se mostram. Se a lei da caridade manda se pague o mal com o bem, se seja indulgente para as imperfeições de outrem, se não diga mal do próximo, se lhe esqueçam e perdoem os agravos, se ame até os inimigos, quão maiores não hão de ser essas obrigações, em se tratando de filhos para com os pais! Devem, pois, os filhos tomar como regra de conduta para com seus pais todos os preceitos de Jesus concernentes ao próximo e ter presente que todo procedimento censurável, com relação aos estranhos, ainda mais censurável se torna relativamente aos pais; e que o que talvez não passe de simples falta, no primeiro caso, pode ser considerado um crime, no segundo, porque, aqui, à falta de caridade se junta a ingratidão.
Mas, ao verificar-se o advento de Jesus, já eles tinham mais desenvolvidas suas idéias. Chegada a ocasião de receberem alimentação menos grosseira, o mesmo Jesus os inicia na vida espiritual, dizendo: “Meu reino não é deste mundo; lá, e não na Terra, é que recebereis a recompensa das vossas boas obras.” A estas palavras, a Terra Prometida deixa de ser material, transformando-se numa pátria celeste. Por isso, quando os chama à observância daquele mandamento: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe”, já não é a Terra que lhes promete e sim o céu. (Caps. II e III.)
Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?
Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando-se do lado de fora, mandaram chamá-lo. – Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te chamam. – Ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu derredor, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; – pois, todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (S. MARCOS, 3:20-21 e 31 a 35; – S. MATEUS, 12:46 a 50.)
Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à família. S. João diz, positivamente (cap. 7:5), “que eles não lhe davam crédito”.
Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia idéia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha nunca seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal. Supor que ele haja renegado sua mãe fora desconhecer-lhe o caráter. Semelhante idéia não poderia encontrar guarida naquele que disse: Honrai a vosso pai e a vossa mãe. Necessário, pois, se faz procurar outro sentido para suas palavras, quase sempre envoltas no véu da forma alegórica.
Ele nenhuma ocasião desprezava de dar um ensino; aproveitou, portanto, a que se lhe deparou, com a chegada de sua família, para precisar a diferença que existe entre a parentela corporal e a parentela espiritual.
A parentela corporal e a parentela espiritual
Os que encarnam numa família, sobretudo como parentes próximos, são, as mais das vezes, Espíritos simpáticos, ligados por anteriores relações, que se expressam por uma afeição recíproca na vida terrena. Mas, também pode acontecer sejam completamente estranhos uns aos outros esses Espíritos, afastados entre si por antipatias igualmente anteriores, que se traduzem na Terra por um mútuo antagonismo, que aí lhes serve de provação. Não são os da consangüinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de idéias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir prazer quando juntos, ao passo que dois irmãos consangüíneos podem repelir-se, conforme se observa todos os dias: problema moral que só o Espiritismo podia resolver pela pluralidade das existências. (Cap. IV, nº 13)
Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis tornar compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, isto é, minha família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
A hostilidade que lhe moviam seus irmãos se acha claramente expressa em a narração de São Marcos, que diz terem eles o propósito de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera o espírito. Informado da chegada deles, conhecendo os sentimentos que nutriam a seu respeito, era natural que Jesus dissesse, referindo-se a seus discípulos, do ponto de vista espiritual: “Eis aqui meus verdadeiros irmãos”. Embora na companhia daqueles estivesse sua mãe, ele generaliza o ensino que de maneira alguma implica haja pretendido declarar que sua mãe segundo o corpo nada lhe era como Espírito, que só indiferença lhe merecia. Provou suficientemente o contrário em várias outras circunstâncias.
Instruções dos Espíritos
A ingratidão dos filhos e os laços de família
9. A ingratidão é um dos frutos mais diretos do egoísmo. Revolta sempre os corações honestos. Mas, a dos filhos para com os pais apresenta caráter ainda mais odioso. É, em particular, desse ponto de vista que a vamos considerar, para lhe analisar as causas e os efeitos. Também nesse caso, como em todos os outros, o Espiritismo projeta luz sobre um dos grandes problemas do coração humano.
Quando deixa a Terra, o Espírito leva consigo as paixões ou as virtudes inerentes à sua natureza e vai, no espaço, aperfeiçoando-se ou permanecendo estacionário, até que deseje ver a luz. Alguns, portanto, partiram levando consigo ódios poderosos e desejos de vingança insatisfeitos; mas a alguns dentre eles, mais adiantados do que os outros, é permitido entrever uma parte da verdade; reconhecem então os efeitos funestos de suas paixões e tomam boas resoluções. Compreendem que, para chegarem a Deus, uma só é a senha: caridade. Ora, não há caridade sem esquecimento dos ultrajes e das injúrias; não há caridade sem perdão, nem com o coração tomado de ódio.
Então, mediante inaudito esforço, esses Espíritos olham para aqueles que odiaram na Terra. Ao vê-los, porém, sua animosidade desperta; revoltam-se à ideia de perdoar e, ainda mais, à de abdicarem de si mesmos, sobretudo à de amarem aqueles que talvez tenham destruído seus haveres, sua honra, sua família. Entretanto, abalado fica o coração desses infelizes. Eles hesitam, vacilam, agitados por sentimentos contrários. Se predomina a boa resolução, oram a Deus, imploram aos bons Espíritos que lhes dêem forças, no momento mais decisivo da prova.
Por fim, após alguns anos de meditações e preces, o Espírito se aproveita de um corpo em preparo na família daquele a quem detestou e pede aos Espíritos incumbidos de transmitir as ordens superiores permissão para ir cumprir na Terra os destinos desse corpo que acaba de formar-se. Qual será, então, sua conduta nessa família? Dependerá de sua maior ou menor persistência nas boas resoluções que tomou. O incessante contato com seres a quem odiou constitui prova terrível, sob a qual às vezes sucumbe, se sua vontade ainda não é bastante forte. Assim, conforme prevaleça a boa ou a má resolução, ele será amigo ou inimigo daqueles entre os quais foi chamado a viver. É assim que se explicam esses ódios, essas repulsões instintivas que se observam em certas crianças e que nenhum ato anterior parece justificar. Nada, com efeito, naquela existência há podido provocar semelhante antipatia; para se lhe apreender a causa, necessário se torna volver o olhar ao passado.
Ó espíritas! Compreendei hoje o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; sabei quais são os vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar essa alma de Deus; essa é a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se, por culpa vossa, ele permaneceu atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, enquanto dependia de vós que fosse feliz. Então, vós mesmos, atormentados pelo remorso, pedireis para reparar a vossa falta; solicitareis, para vós e para ele, uma nova encarnação, na qual o cercareis de cuidados mais esclarecidos e ele, cheio de reconhecimento, vos cercará com o seu amor.
Não rejeiteis, pois, a criança de berço que repele sua mãe, nem aquela que vos paga com ingratidão; não foi o acaso que a fez assim e que vo-la deu. Uma imperfeita intuição do passado se revela, e daí podeis julgar que um ou outro já odiou muito ou foi muito ofendido; que um ou outro veio para perdoar ou para expiar. Mães! Abraçai, pois, o filho que vos causa desgosto e dizei a vós mesmas: Um de nós dois foi culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos divinos que Deus vinculou à maternidade, ensinando a essa criança que ela está na Terra para se aperfeiçoar, amar e bendizer.. Mas, oh! muitas dentre vós, em vez de eliminar por meio da educação os maus princípios inatos de existências anteriores, entretêm e desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza, ou por descuido, e, mais tarde, o vosso coração, ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será para vós, já nesta vida, um começo de expiação.
A tarefa não é tão difícil quanto poderíeis pensar. Não exige o saber do mundo. Tanto o ignorante quanto o sábio podem desempenhá-la, e o Espiritismo vem facilitá-la, dando a conhecer a causa das imperfeições do coração humano..
Desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz de sua existência anterior. É a estudá-los que os pais devem aplicar-se. Todos os males têm seu princípio no egoísmo e no orgulho. Observai, pois, os menores sinais que revelem o gérmen desses vícios e aplicai-vos a combatê-los, sem esperar que criem raízes profundas. Fazei como o bom jardineiro, que corta os maus rebentos à medida que os vê despontar na árvore. Se deixardes que se desenvolvam o egoísmo e o orgulho, não vos espanteis de serdes mais tarde pagos com a ingratidão. Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam êxito, nada têm de que se reprovar e podem conservar tranquila a consciência. Ao pesar muito natural que experimentam pelo insucesso de seus esforços, Deus reserva uma grande, uma imensa consolação, pela certeza de que se trata apenas de um retardamento, que lhes será dado concluir, em outra existência, a obra começada nesta, e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)
Deus não estabelece uma prova acima das forças daquele que a pede; só permite as que podem ser cumpridas. Se não têm êxito, não é que falte possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em suas existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Chega um dia em que o culpado está cansado de sofrer, em que seu orgulho está enfim domado; é então que Deus abre os braços paternos ao filho pródigo que se lança a seus pés. As fortes provas, entendei-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas em vista de Deus. É um momento supremo, e é sobretudo então que importa não falhar, murmurando, se não se quiser perder o fruto da prova e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus, que vos oferece a ocasião de vencer, para vos dar o prêmio da vitória. Então, quando, saídos do turbilhão do mundo terrestre, entrardes no mundo dos Espíritos, sereis aí aclamados como o soldado que sai vitorioso do meio da refrega.
De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração. Há quem suporte com coragem a miséria e as privações materiais e sucumba ao peso dos desgostos domésticos, ferido pela ingratidão dos seus. Oh! que angústia pungente é essa! Mas quem pode, em tais circunstâncias, reerguer melhor a coragem moral do que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que, se há longos dilaceramentos, não há desesperos eternos, pois Deus não pode querer que sua criatura sofra sempre? Que há de mais consolador, de mais encorajador do que este pensamento: que depende de si, de seus próprios esforços, abreviar o sofrimento, destruindo em si as causas do mal? Mas, para isso, é preciso não deter o olhar na Terra e não ver apenas uma única existência; é preciso elevar-se, pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a grande justiça de Deus se revela aos vossos olhos, e esperais com paciência, porque encontrais explicação para o que na Terra vos parecia monstruosidades. As feridas que aí recebeis já não vos parecem senão arranhaduras. Nesse olhar lançado sobre o conjunto, os laços de família aparecem sob sua verdadeira luz. Já não são os frágeis laços da matéria que unem seus membros, mas os laços duradouros do Espírito, que se perpetuam e se consolidam à medida que se depuram, em vez de se romperem pela reencarnação.
Os Espíritos que a semelhança dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição levam a reunir-se formam famílias. Esses mesmos Espíritos, em suas migrações terrenas, procuram uns aos outros para se agruparem, como o fazem no espaço; daí nascem as famílias unidas e homogêneas. Se, em suas peregrinações, ficam temporariamente separados, mais tarde tornam a encontrar-se, felizes pelos novos progressos que realizaram. Mas, como não devem trabalhar apenas para si mesmos, Deus permite que Espíritos menos adiantados venham encarnar entre eles, para aí colherem conselhos e bons exemplos, em benefício de seu progresso. Esses Espíritos causam, por vezes, perturbação nesse meio; mas aí está a prova, aí está a tarefa.
Acolhei-os, portanto, como irmãos; vinde em seu auxílio e, mais tarde, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por haver salvo náufragos que, por sua vez, poderão salvar outros. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.)